quinta-feira, 23 de abril de 2020

23 abril - "Porquê ler?"


“Porquê ler?”

in Pure Pleasure, de John Carey (2000, Faber and Faber, pp. ix-xii e xv-xvi)
(Tradução: Paulo Lopes)


«Ainda haverá livros no final do próximo milénio? A questão parece alarmista, mas é séria. Há mil anos, não havia propriamente grande frenesim livresco. A maior parte das pessoas era iletrada. A impressão tipográfica ainda não tinha sido inventada. Daqui a mil anos, as coisas poderão ser tão remotas como tudo o que agora podemos imaginar. Na obra When the Sleeper Wakes[1], de H. G. Wells, uma personagem chamada Graham sai de um transe cataléptico no ano 2200 e descobre que os livros são já obsoletos. Foram substituídos por vídeos que passam em ecrãs de televisão (designados “cinetoscopes”) e rotulados num inglês fonético tosco, que é o melhor que as pessoas logravam escrever.
(...)
Atualmente, a cisão entre pessoas que leem e pessoas que não leem é a maior divisão cultural, transversal a idade, classe e género. Nenhum dos lados compreende o outro. Para os não-leitores, os leitores parecem pedantes. Para os leitores, o enigma é a que é que recorrem os não-leitores para estimular as suas mentes. Se, no sobrepovoado mundo de amanhã, ler se tornar uma boia de salvação para a sanidade de quase toda a gente, esta cisão dissipar-se-á — o que seria uma ocorrência feliz, quer para as pessoas, quer para os livros.
É errado pensar que o que ganhamos com a leitura nem precisa de ser explicitado. Porque, se isso fosse assim tão óbvio, haveria mais leitores. Na prática, explicar os proveitos da leitura a não-leitores é extremamente difícil. E, além disso, suscita uma oposição articulada. Se alegamos que ler expande os nossos horizontes mentais e nos permite experienciar mais do que uma vida, os não-leitores respondem que essas são justamente as vantagens que o cinema e a televisão oferecem. Por isso, o que tem a leitura de especial?
O que tem de especial, estranhamente, é resultado de uma imperfeição do tipo de comunicação dos livros por comparação com a da televisão ou dos filmes. As imagens transmitidas na televisão ou nos filmes são um veículo de comunicação quase perfeito, porque se parecem com aquilo que representam. As palavras escritas não. São apenas marcas pretas no papel. Para representarem algo, têm que ser decifradas por um praticante competente. Embora leitores assíduos o façam instantaneamente, traduzir palavras impressas para imagens mentais é uma atividade incrivelmente complexa. Envolve uma capacidade imaginativa diferente da de outros processos mentais. Se a leitura acabar, esta capacidade desaparecerá — e as consequências são incalculáveis. Porque a leitura e a civilização cresceram juntas e não sabemos se uma pode sobreviver sem a outra. A capacidade imaginativa exigida pela leitura está claramente ligada, psicologicamente, com a aptidão para fazer juízos e a disposição para a empatia. Sem a leitura, estas faculdades podem definhar. Transpor palavras impressas para imagens mentais dá também à leitura uma dimensão mais criativa que o contacto com outros meios de comunicação, pois nenhum livro ou página é exatamente o mesmo para dois leitores diferentes. Não estou a advogar que o leitor é realmente o ‘autor’ do texto — uma moda entre teóricos da literatura do passado —, assim como um pianista que interpreta Chopin não é Chopin. Mas um leitor, tal como um pianista, está empolgado numa atividade intensamente criativa. Quem a pratica habitualmente constata o esforço que ela envolve assim que a suspende. Quando se interrompe a leitura de um livro e se começa a ver televisão, a impressão de relaxamento é imediata. Isso acontece porque uma grande parte da mente ficou inativa. As imagens lampejam diretamente para o cérebro. A nossa participação ativa não é requerida. Isto implica que uma democracia composta maioritariamente por consumidores de televisão é árida, do ponto de vista mental, quando comparada com uma democracia composta maioritariamente por leitores. A democracia moderna passou da segunda para a primeira na segunda  metade do século XX.
Como muitas pessoas não leem livros, ler é considerada uma atividade elitista. No entanto, não é mais elitista do que caminhar — ainda menos, aliás, porque o estado paga-nos para aprendermos a ler, ao passo que criar o hábito de caminhar fica entregue à iniciativa de cada um. E os livros não são apenas para os endinheirados. Podemos requisitá-los de graça em qualquer biblioteca pública. Algumas pessoas têm preguiça para ler ou caminhar, mas isso não tem nada que ver com elitismo. É certo que há leitores pretensiosos — e causam muitos danos. Eles insinuam, na opinião pública, a associação da leitura à presunção e ao falso refinamento, e afastam assim leitores potenciais.
(...)
Não me esqueci da personagem de H. G. Wells, Graham, e o mundo aterrador em que ele acorda. Além de um mundo sem livros, é tenebrosamente populoso. Densos magotes de gente berram e agitam-se em todo o lado. Graham vai-se abaixo e pede, lamuriento, para ser levado para um quarto onde possa estar só. Este cenário reflete o desânimo de Wells sobre a demografia. (...) Mas suponhamos que Graham, encolhido no seu acanhado quarto, com as ensurdecedoras multidões lá fora abalando as paredes, descobre, esquecida num canto, uma pilha de livros empoeirados. Descobre, quando os folheia, que são de um século que ele não conheceu (pois ele entrou no seu transe comatoso em 1899). Esses livros, para o fazerem esquecer a sua aflição, terão que ser verdadeiramente absorventes. Terão que abrir um caminho para a sua espiritualidade mais profunda. Terão que fazê-lo rir, às vezes, e querer continuar a viver. E terão, sobretudo, que ser capazes de encantar também alguns dos quase iletrados bárbaros lá de fora, que, graças à influência de Graham, poderão reintroduzir a leitura num mundo sem livros.»
            É um teste severo — mas felizmente qualquer biblioteca medianamente apetrechada contém livros que passam este teste.




[1]              Reescrita e publicada 11 anos mais tarde, 1910, sob o título The Sleeper Awakes. (N. do T.)

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