Mostrar mensagens com a etiqueta histórias com História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta histórias com História. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de maio de 2015

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA


Vítimas portuguesas do nazismo


Afinal também houve portugueses
nos campos de concentração nazis
Está em curso um projeto de investigação, liderado por Fernando Rosas (Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa), reunindo investigadores especializados nas relações luso-alemãs durante a II Guerra Mundial.
De acordo com o que já foi possível confirmar até ao momento, terão sido mais de 70 os cidadãos portugueses mortos nos campos de Auschwitz e Birkenau
A investigação centra-se na presença de portugueses nos campos de concentração ou a trabalhar como escravos, sujeitos a trabalho forçado, em fábricas na Alemanha. Já foi possível descobrir 300 casos nessa situação.
Para Fernando Rosas, as razões para a presença de portugueses são sobretudo duas: “Uns foram parar aos campos de concentração porque já eram refugiados da Guerra Civil de Espanha e há também os emigrantes que são arrebanhados pelo nazis – quer por contratação direta, quer por troca efetuada pelo Governo francês sempre que se procedia ao regresso de prisioneiros”. Com efeito, o regime colaboracionista de Vichy trocava trabalhadores estrangeiros por prisioneiros de guerra franceses, recorrendo sobretudo a emigrantes como moeda de troca.

_______________________

Fonte: http://www.esquerda.net/artigo/hist%C3%B3ria-desconhecida-dos-portugueses-mortos-nos-campos-de-concentra%C3%A7%C3%A3o-nazis/31922

sexta-feira, 24 de abril de 2015

HAVIA REMÉDIO PARA TUDO!...


 
Na Idade Média, as doenças eram combatidas com as mais diversas mézinhas, produtos, substâncias – vegetais ou animais –, uma vez que se desconhecia a verdadeira origem das doenças.
De tentativa em tentativa, empiricamente e através da observação dos efeitos, lá se ia tentando debelar as maleitas que surgiam. Físicos, cirurgiões, barbeiros, boticários faziam o que podiam.
Havia a ideia que, se tais “remédios” não fizessem bem, mal também não fariam…
Porém, alguns boticários eram criticados, por terem uma duvidosa preparação para as funções e por se “governarem” à custa dos males alheios. Alguns provérbios recordam essa crítica social:
“Remédio caro faz sempre bem, se não ao doente, ao boticário”
“Com malvas e água fria, faz-se um boticário num dia”
Através de uma velhinha quadra popular, que sobreviveu até meados do século XX, o Povo cantava assim:

                               Há remédio para tudo

                               Naquela negra botica

                               Só menos para as saudades

                               Quem as tem, com elas fica

Eis, pois, algumas mézinhas em voga no século XIII
*Para tratar a dor de dentes:
Colocava-se sumo de pepino no ouvido. Ou então leite de cadela
*Para debelar a diarreia:
Torravam-se pés de perdizes. Depois esmagavam-se, dissolviam-se em vinho e bebia-se esta mistura.
*Para a inflamação da vista:
Semente de funcho, erva arruda e vinho branco
*Para o reumatismo:
Colocava-se sobre a parte que doía, papas de linhaça galega em panos de lã.
_________________________

Fontes:
António Moreira, Provérbios Portugueses, Lisboa, Editorial Notícias, 2003.
José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra, Diário da História de Portugal, vol. 1, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992.

terça-feira, 3 de março de 2015

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA


No Palácio das Laranjeiras, em 1843
Uma festa deslumbrante em Lisboa

O conde de Farrobo, Joaquim Pedro Quintela,  gostava de surpreender a alta sociedade da época com o “fausto” e a “riqueza” de festas impressionantes.
Em Fevereiro de 1843, convidou a família real, a fina flor da sociedade lisboeta e as mais altas personalidades da época, para uma “sumptuosa” receção no seu majestoso e “magnífico” Palácio das Laranjeiras. Este encontrava-se rodeado por “vastos jardins”, estufas cheias de “flores e frutos, vindos de todo o mundo”, piscinas, cascatas, fontes, jaulas com animais selvagens e exóticos, um labirinto e um teatro “riquíssimo” decorado por artistas famosos –  o célebre Teatro Thalia.
Durante a festa, foi representada a ópera Le Duc d’Obonne, de Eugene Scribe – o maior dramaturgo francês do século XIX. O papel principal foi desempenhado pelo próprio anfitrião – o Conde de Farrobo, acompanhado por Carlota O’Neill, Carlos da Cunha Meneses, Duarte de Sá, entre outros.
Seguiu-se um baile nos jardins que estavam “maravilhosamente iluminados” e uma “ceia requintadíssima”. Os festejos duraram dois dias…
___________________

Fontes: José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra, Diário da História de Portugal, vol. 3,  Lisboa, Difusão Cultural, 1998
           (adapt.).

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA


A matança do porco:

- festa e subsistência

Desde tempos muito recuados que a carne de porco foi muito utilizada na alimentação das populações. Era a carne mais acessível aos estratos sociais mais pobres.
Na Idade Média, era vulgar os porcos andarem a vaguear pelas ruas de vilas e cidades. Mas a sujidade acumulada, o cheiro e alguns inconvenientes causados, começaram a preocupar as autoridades. Em Santarém, no século XV, há notícias de que os porcos, fossando pelos adros de igrejas, chegaram a desenterrar mortos que lá se encontravam sepultados. Em 1482 foi decretada, em Santarém, a proibição dos porcos andarem pelas ruas. Quem os quisesse criar, teria de os ter em casa ou prender em seus quintais. Porcos que fossem encontrados nas ruas, eram recolhidos e confiscados a favor do concelho. Ficava também estipulado que, quem encontrasse porco em liberdade, poderia caçá-lo, sem ficar sujeito a qualquer pena ou multa. O porco era alimentado e engordado ao longo de todo o ano. A matança costumava ocorrer durante o inverno:
"Eram mortos no tempo do frio,
O mais tardar pelas Janeiras,
Assim faziam o bom enchido
O belo chouriço das Beiras."
                     (in António dos Santos Vicente, Vida e Tradições...)

A matança do porco era ocasião festiva e pretexto para juntar a família, os vizinhos e amigos. A carne era salgada e também posta ao fumeiro, sendo a garantia que a subsistência estava assegurada, que havia carne para todo o ano. Por conseguinte, a matança do porco, para além do ritual da festa e convivialidade, constituía uma preciosa reserva para os tempos de crise.


É que, dentro das cancelas, estava o governo da casa dos pobres….

___________________

Fontes: António dos Santos Vicente, Vida e Tradições nas Aldeias Serranas da Beira, s.l., s.n., 1995.
             José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra, Diário da História de Portugal, vol. 1,  Lisboa, Difusão Cultural, 1992
             (adapt.)
            Margarida Ribeiro, Estudo Histórico de Coruche, Coruche, Câmara Municipal, 1959.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA


LINHAS DE TORRES
Um sistema defensivo singular em todo o mundo

As “Linhas de Torres Vedras”, habitualmente designadas por “Linhas de Torres”, são um sistema defensivo a norte de Lisboa, edificado nos inícios do século XIX com o propósito de travar a 3ª Invasão Francesa, mais concretamente para a defesa do porto de Lisboa e da capital do reino. Elas constituem o maior sistema de fortificações militares de campo construído, que desempenhou um decisivo papel na História da Europa ao travar o exército napoleónico.
Não se trata, portanto, de uma barreira contínua, uma vasta muralha de fronteira, mas de uma rede de fortificações concebidas para um momento concreto (as invasões francesas). As Linhas de Torres são  um misto de obras defensivas (conjunto de três linhas defensivas) e de formações naturais do terreno. Ao todo eram cerca de 150 fortificações. Algumas ainda são hoje visitáveis. Outras estão em processo de recuperação e restauro. Trata-se, portanto, de um sistema defensivo militar, singular em todo o mundo.
Fontes: http://www.cm-mafra.pt/files/cultura/Museus_e_Patrimonio/folhetoRHLT_PT.pdf (adapt.)
           http://pt.wikipedia.org/wiki/Linhas_de_Torres_Vedras .(adapt.)
           http://linhasdetorres.blogspot.pt/ (adapt.)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA



 
e por fim restaram as tripas…

Nos preparativos para o arranque da Expansão Portuguesa, o Infante D. Henrique precisando de abastecer as naus para a tomada de Ceuta, na expedição militar comandada pelo Rei D. João I em 1415, pediu aos habitantes da cidade do  Porto todo o género de alimentos. Todas as carnes que a cidade tinha foram limpas, salgadas e acamadas nas embarcações, ficando a população sacrificada unicamente com as miudezas para confecionar, incluindo as tripas. Foi com elas que os portuenses tiveram de inventar alternativas alimentares, surgindo assim o prato "Tripas à moda do Porto". A necessidade aguçou o engenho….  e do pouco se fez “muito”…

O prato acabaria por se perpetuar até aos nossos dias e tornar-se, ele próprio, um dos elementos  gastronómicos  mais caraterísticos e emblemáticos da cidade. De tal forma que, com ele, nascia também a  alcunha "tripeiros", como ficaram a ser conhecidos os portuenses desde então.

(Fonte: Joel Cleto, “A origem dos tripeiros”, in Lendas do Porto, Matosinhos, QuidNovi, 2010 -adapt).

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA


 
A luz elétrica faz mal à vista?

 

Em 1857, o governo português nomeou uma comissão para apreciar o relatório e contas da Companhia Lisbonense de Iluminação e Gás. Eram os primórdios da eletricidade na iluminação pública em Portugal.
A dita comissão debruçou-se sobre o tema e reconheceu que a luz elétrica era “barata em relação aos outros sistemas de iluminação”. Todavia, alertava para os “efeitos insuportáveis à vista” que, segundo os peritos da dita comissão, causariam o “enfraquecimento ou a perda de vista das pessoas que estivessem próximas dessa intensa luz”. Tais problemas derivavam, segundo se afirmava, na concentração “em um mesmo ponto de uma imensa quantidade de raios luminosos”.
Considerava-se, portanto, que não estavam ainda suficientemente estudados os efeitos “das fortes e constantes correntes elétricas” sobre a “higiene pública”. E, mais do que isso, considerava-se também que tais correntes causariam uma “grande perturbação na atmosfera”, podendo, por isso mesmo, agravar “algumas enfermidades” ou, pior ainda, provocar outras novas doenças, ainda “não compreendidas” nem, tão pouco, descritas nos “Tratados Patológicos” das ciências médicas da época. 

_____________________

Fonte:  José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra, Diário da História de Portugal, vol. 3, Lisboa, Difusão Cultural, 1998 (adapt.)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA




O rei D. Manuel açoita o príncipe

Conta-se que certo dia, tendo o príncipe D. João (futuro D. João III) uns oito ou nove anos, chegou-se, pela hora da sesta, a uma varanda do Paço da Ribeira, onde a corte na altura se encontrava. Um pobre mendigo, que por ali passava, ao ver o príncipe, pediu-lhe esmola. Como não tendo que lhe dar, o pequeno D. João mandou-lhe que levasse um burro que por ali estava atado a um esteio.
Entretanto, estava o mendigo a preparar-se para levar o burro quando chegou um aldeão que era o verdadeiro dono do animal. Mas o mendigo não queria abrir mão do burro porque dizia que tinha sido o príncipe que lho dera. Foram os dois homens presentes ao rei. Este, ouvindo a história, devolveu o seu a seu dono e, ao mendigo, deu em dinheiro a “justa valia” do burro.
De seguida, mandou chamar o príncipe que, entretanto, se tinha escondido. Levaram-no à força aos aposentos onde se encontravam o rei e a rainha. Então, D. Manuel, advertindo asperamente o jovem príncipe seu filho, disse-lhe:
- “Porque sois príncipe e haveis de ser rei, vos hei-de castigar pelo que agora fizestes, para que nunca vos mais esqueça que a principal obrigação do ofício de rei é dar a cada um o seu e que por nenhum caso pode dar o que for de uma pessoa a outra”.
Mandou ao príncipe que se desatacasse. O príncipe recusou-se. Então, foi o próprio rei que lhe “desatacou as atacas das calças” e, com sua mão, lhe deu “meia dúzia de açoutes”.


Fonte: Ditos Portugueses dignos de memória, 3ª ed., Actualização, introdução e comentários de José Hermano Saraiva, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. (adapt.).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

EL-REI DISFARÇADO



El rei disfarçado:

Uma travessura de D. Manuel I

Os reis costumavam ir em peregrinação aos principais santuários, quer da Península Ibérica quer da cristandade.

Conta-se que indo el-rei D. Manuel em romaria ao santuário da Santiago de Compostela, na Galiza, e como não queria ser lá reconhecido, fez-se acompanhar apenas por sete ou oito fidalgos (muito pouco para o que era habitual numa comitiva régia). Era costume o rei fazer-se acompanhar sempre por um numeroso séquito de fidalgos e criados. Dessa forma se mostrava o poder, o prestígio, notoriedade e reconhecimento social.
El-rei para se divertir, para seu “desenfadamento”, indicou então, um dos fidalgos para fingir ser a figura principal daquela comitiva, ordenando aos demais para acatarem as ordens de quem fosse indicado para o efeito. A escolha recaiu em D. João de Sousa, senhor de Sagres e Nisa e guarda-mor do rei. Seria ele a “liderar” aquela comitiva onde o rei seguia, mas disfarçado. Dessa vez não queria ser notado.
Chegados a Santiago, e ao entrarem na igreja, pediram aos padres para lhes mostrarem as relíquias do apóstolo São Tiago. Os padres ao verem que todos faziam “grande acatamento” a D. João, era com ele que mais conversavam e lá iam explicando tudo o que iam mostrando. D. João, fingindo ser ele o principal, e cumprindo exemplarmente o seu papel, mantinha sempre um ar “muito sisudo e severo”, muito “grave e encadarroado”.
D. Manuel, «livre» do duro ofício de rei, e para seu “desenfadamento”, quis fazer uma travessura a D. João de Sousa para se divertir e pô-lo à prova. Colocou-se então atrás dele e picou-o com um alfinete. D. João, percebendo a travessura do rei, mas “sem mudar a gravidade do rosto”, ordenou-lhe:
- Ora passai-vos para acolá.
E el-rei teve mesmo de lhe obedecer…..
_________

Fonte: Ditos Portugueses dignos de memória, 3ª ed., Actualização, introdução e comentários de José Hermano Saraiva, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. (adapt.).

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Histórias com HISTÓRIA


Correr a ponte a cavalo:

- valentia ou doidice?

Durante a Idade Média, os reis e as suas cortes não estavam sempre no mesmo local. Tinham caráter itinerante. Muitas vezes faziam-no para fugir à peste – doença contagiosa e para a qual não existia cura.

A corte circulava entre Lisboa, Évora, Santarém, Almeirim, Montemor--o-Novo, Sintra, Salvaterra de Magos…etc.

Muitas vezes, os reis, acompanhados dos seus fidalgos mais próximos, faziam incursões nas terras circunvizinhas, para caçar, para contactar com as autoridades locais, para ouvir os grandes senhores dos concelhos, as dificuldades, os anseios…etc.

Conta-se que um dia, o rei D. Afonso V, de passagem por Coruche, disse a um seu nobre cavaleiro, que integrava a comitiva régia, que seria grande valentia correr a ponte a cavalo. Ora, a ponte sobre o rio Sorraia em Coruche devia ser frágil e aquele exercício seria muito perigoso e altamente arriscado.

Mas o nobre cavaleiro não quis mostrar fraqueza. Era a sua honra que estava em jogo. Os homens honrados, os grandes senhores da nobreza, não podiam ter medo da morte. E aquele nobre, não se negando ao “desafio” do seu rei e senhor, foi mesmo correr a ponte a cavalo. No fim, foi ter com o rei e, desgostoso, disse-lhe:

– “Senhor, estou para me despedir de vós por duas razões: a uma por haverdes isto por valentia; e a outra por quererdes que, por uma doidice, morra um tal cavaleiro como eu”.

 

_____________

Fonte:  Ditos Portugueses dignos de memória, 3ª ed., Actualização, introdução e comentários de José Hermano Saraiva, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. (adapt.).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA


Um poço, uma horta e um… teimoso

 

Na Benavente de meados do século XVI, próximo da ponte que ligava a Salvaterra de Magos, havia um poço – “o único por onde o povo bebe”.

No ano de 1563 o poço necessitava de reparação urgente por estar já “muito desmanchado”. Era, ao que consta, a principal fonte de abastecimento de que Benavente dispunha, pois “daí bebia toda a gente desta vila”. Eram, pois, compreensíveis todos os cuidados da Câmara em preservar a boa qualidade da água.

Todavia, conta-se que um tal Ensenso Fernandes abrira uma vala a céu aberto numa horta que cultivava ali mesmo junto ao poço da vila. A vala lançava muita sujidade no poço. Este, no Verão, exalava um “ruim cheiro”. A Câmara, preocupada com a situação, mandou o porteiro do concelho intimar o prevaricador a tapar a referida vala, sob pena de 1000 reais de multa e cadeia. Porém, a resposta do morador foi teimosamente desconcertante: Ensenso Fernandes “respondeu que não havia de tapar”….

Desconhece-se o que terá acontecido, quer à água do poço, quer ao morador teimoso…..

______________

Fonte:  Francisco Correia, Subsídios para a História Benaventina do século XVI. (Sumários de um Livro de Actas da Câmara de 1559 a 1564), Benavente, Câmara Municipal, 1995 (adapt.).

terça-feira, 28 de outubro de 2014

HISTÓRIAS COM HISTÓRIA


Um pastor que matou a fome ao rei

 

A caça era, para o rei e para os nobres, uma forma de, em tempo de paz, se exercitarem e prepararem para a guerra. A função da nobreza era defender a comunidade e, em caso de necessidade, ajudar o rei a defender o reino.

O rei D. Sebastião era um apaixonado pelo exercício da caça. Mostrava-se disposto, por exemplo, a suportar os rigores do Inverno, ao vento e à chuva.

Um dia, na coutada de Almeirim, D. Sebastião atravessou um ribeiro fundo onde a água lhe dava pela cintura. Numa outra ocasião, correndo atrás de um porco montês, afastou-se tanto que, juntamente com um fidalgo que o acompanhava, acabou por se perder no mato. O entusiasmo era tanto que nem deu pelo tempo passar. Quando reparou já começava a anoitecer. E o rei ali perdido no meio do mato…..

Encontrou um pastor, que por ali guardava os seus gados, e perguntou-lhe o caminho de regresso. O rei não se identificou, não disse quem era, e o pastor não reconheceu a pessoa com quem falava. O pastor lá indicou o caminho àquele seu desconhecido. D. Sebastião perguntou ainda se ele tinha algum pedaço de pão que lhe desse, pois estava com imensa fome. O pastor respondeu que apenas tinha um pouco de pão, mas já duro e preto. Mas D. Sebastião insistiu, pois a fome era muita. Face à insistência, o pastor lá repartiu aquele seu pão.

Mais tarde, D. Sebastião terá comentado, junto dos seus mais próximos, fidalgos e conselheiros, que “nunca em toda sua vida, comera cousa que milhor lhe soubesse”……

 
_____________

Fonte:  Padre Amador Rebelo, Relação de vida d'Elrey D. Sebastião, Leitura, Introdução e notas de Francisco de Sales de Mascarenhas Loureiro, Sep. Rev. Fac. Letras Lisboa, 4a série, vol. 2, 1977 (adapt.)